Raul Lara Campos e os cavalos por toda uma vida

Raul Lara Campos, 90, nascido em 8 de outubro de 1923.  Apaixonado horseman e recordista de pontos na Federação Paulista e Confederação Brasileira de Hipismo hoje é figura notória e, especialmente, muito querido na Sociedade Hípica Paulista, que ele considera a extensão da sua casa. Mas curiosamente sua carreira hípica começou somente aos 33 anos.

Raul, Caio Sérgio de Carvalho, Gianni Samaja e Roberto Luiz Joberto: campeões paulistas por equipes em 1972

Raul, Caio Sérgio de Carvalho, Gianni Samaja e Roberto Luiz Joberto: campeões paulistas por equipes em 1972

Sua trajetória é ímpar com inúmeras vitórias, feitos inusitados, cavalos espetaculares sempre escolhidos a dedo por ele mesmo. Enfim são muitas as histórias para contar. Em uma tarde de dezembro de 2013, Raul conversou com o portal da Sociedade Hípica Paulista e selecionamos para vocês alguns trechos da conversa e preciosas imagens guardadas em seus álbuns caprichosamente montados.

Primeiras grandes conquistas

Primeiras grandes conquistas

Início tardio aos 33 anos

Eu montava na fazenda desde pequeno fazia laço na garupa. Papai tinha muitas fazendas, a principal era em Itapeva (Faxina era o nome antigamente).

Mas o meu esporte dos 23 aos 33 anos era hóquei sobre patins, inclusive, joguei um Campeonato do Mundo em Genebra com 32 anos. Na volta começou muita politicagem e todo mundo queria ser presidente, me aborreci, larguei e pensei: vou montar a cavalo.

Comecei no Clube Hípico de Santo Amaro aos 33 anos em 1956. Alguns sócios dissidentes da Hípica Paulista fizeram parte do fundamento do clube. Era uma estrada de terra para ir para Santo Amaro e quando chovia tinha que por corrente no carro. Tudo era bem rústico. Também fui presidente em Santo Amaro por seis anos e depois nem me lembro quando vim para Hípica Paulista.

Raul : destaque no cross country em Santo Amaro

Raul : destaque no cross country em Santo Amaro

Madeira pesada

Quando eu comecei a montar não existia categoria principal. Existia a categoria dos cavalos dos cavalos classe A, B, C, D. Então a gente competia na categoria do cavalo e não do cavaleiro. A prova mais baixa começava a 1.20 metro de altura, Classe B, 1.30m, C, 1.40,m, D, de 1.50m para cima.

É interessante fazer uma comparação daquela época e hoje: porque começávamos a 1.20 e íamos até 2.20 metros. Era outro papo. Hoje começa a 0.50 até 1.50 e muito raramente 1.60 metro. Você não vê espetáculo hoje com cavalos saltando mais de 1.80 metro.

Raul com Balalaika em 1975

Raul com Balalaika em 1975

Claro que há diferenças nos traçados. Naquela época tínhamos varas mais pesadas e ganchos maiores e mais pesados. Hoje o cavalo encosta e o obstáculo cai. Dificilmente tem um muro. Aqui na Hípica tínhamos um muro de oito metros de largura com caixetas de 1m x 50cm.

 

Profissão

Eu trabalhei muito tempo em concessionária de veículos. Eu sou da época que não tinha automóvel fabricado no Brasil, só tinha carro importado e nós eramos representantes da General Motors, Chevrolet, Buik e Oldsmobil.

Arrojo no salto sob automóveis também eram notícia no jornal

Arrojo no salto sob automóveis também eram notícia no jornal

A escolha dos cavalos

Fato é que comecei a praticar hipismo aos 33 anos de idade e três anos de depois eu era campeão paulista e cinco anos depois campeão brasileiro com cavalo comprado na estrada feita por mim. Chamava-se Marechal.

Saltando com Marechal na Hípica Paulista em 1956

Saltando com Marechal na Hípica Paulista em 1956

Todo mundo em São Paulo tinha cavalo argentino. Mas eu escolhi o meu primeiro cavalo andando em estrada em Tatuí, perto da fazenda de um irmão meu. Vi um cavalo grande montado por um peão. Aí perguntei: escuta de quem é esse cavalo? Ele era Totó Meirelles, tio do PG, do Augusto (sócios da SHP). Será que ele vende ? O peão disse acho que vende porque ele tirou esse cavalo para polo. Mas ele é muito grande não dá pra jogar. E, realmente ele vendeu, e eu comprei. Era o Marechal com o qual fui campeão paulista três anos depois.

O Ejuin foi o meu primeiro cavalo. Mas pra falar dele, eu tenho que falar que dos três meses antes. Meu irmão criava gado e tinha um amigo, o Aurélio Pessoa que era muito engraçado, trocava cachorro por carneiro. Meu irmão foi lá pra trocar um gado e ele ofereceu um cavalo lindo.  Aí fomos ver o cavalo, muito bonito e uns três meses depois eu resolvi começar a montar em Santo Amaro. E, como hoje em dia, quando aparece um cara novo na hípica tem sempre alguém querendo vender um cavalo pra ele. O preço de cavalo chucro, vindo da Argentina variava entre 60 a 100 não sei qual moeda, já saltando era uns 200 e eu não sou de gastar dinheiro com cavalo. Fui lá ver o Ejuin e comprei ele por 10, era um craque, craque…!

Em 11957 com Ejuin: um verdadeiro achado

Em 1957 com Ejuin: um verdadeiro achado

Eu na verdade sou o último cavaleiro campeão brasileiro de salto em uma prova de rodízio. Depois acabou. Então eu considero que hoje não tem mais cavaleiro campeão brasileiro, tem conjunto campeão brasileiro. Na minha época os quatro melhores iam para o rodízio e quem montava melhor era o cavaleiro campeão e tinha o cavalo também.

Comemorando o título de campeão brasileiro em 1961

Comemorando o título de campeão brasileiro em 1961 em Curitiba

Eu pedia para todos os meus amigos que se tivesse um cavalo grande comprassem para mim. E eu tinha um amigo ele, ele lidava com carneiros que trazia do sul. Aí um dia ele me falou Raul está vindo um caminhão de cavalo, são 50 cavalos deve ter cavalo grande.

Falei: vamos olhar ver os maiores, passar o cabresto. Eles não deixavam nem chegar perto. Como eu vou ver? Eu estava em Itapetininga no recinto da exposição de animais. Aí perguntei pro peão se tinha cavalo grande. Tinha. Então trouxeram o cavalo e eu medi: dava 1.60 m de altura. Soltei ele na tropa pra comparar e tinha uns dois ou três cavalos que eram mais ou menos da altura dele. Então separamos eles no corredor comprido. Pus um tronco no meio e tocava eles de lá pra cá.. de cá pra lá…o cavalo saltava o tronco, separamos dois cavalos.. Mas já era de noite e o cara falou: Raul tem uma égua aí que caiu do vagão e se machucou, mas vamos passar ela. A égua tinha aberto uma tampa na cabeça e ficou com a carne caída. Ela nem era grande  e cabana e beiçuda. Insistiu e resolvemos passá-la no corredor. Ela veio trotando e quando viu o tronco pôs a orelha de pé e continuou trotando igual,  deu um pulo,  passou um metro acima do tronco e comprei.. Essa Candonga aqui:

Com Candonga, Raul comemorou grandes conquistas na Europa . Na foto em pista em San Remo na Itália em 1964

Com Candonga, Raul comemorou grandes conquistas na Europa . Na foto em pista em San Remo na Itália em 1964

Cheguei a levar a Candonga para Europa, saltei junto com Nelson Pessoa. Fiquei um ano na Europa com Neco, inclusive, teve uma prova ao cronometro em que ninguém zerava. O Neco entrou e fez zero.. aí ele falou: Raul, não tem problema. Eu entrei e fiz zero também. Passamos a liderar. Aí entrou Schockemöhle e ganhou de mim e do Neco. Schokemöhle em 1º, Neco em 2º e eu, 3º. Foram os três zeros da prova. Essa Candonga era um espetáculo.

Alwin Schockemöhle, Nelson Pessoa e Raul Lara Campos no placar em Internacional na Alemanha e 1964

Alwin Schockemöhle, Nelson Pessoa e Raul Lara Campos no placar em Internacional em Colonia,  Alemanha, em 1964

Quantos cavalos eu tive na vida eu não sei. Depois do início da minha carreira esportiva, aos 33 anos, não foram tantos. Eu vendi todos os meus cavalos na Europa após a minha estadia, pois quando faltava um mês para vir pro Brasil eu fraturei a bacia. Então pedi pro Neco vender os cavalos e ele vendeu todos. Quem comprou o Pau Brasil foi uma senhora. O Neco me escrevia que ela disse que é o melhor cavalo que já teve na vida.

Com Pau Brasil em Wiesbaden na Alemanha em 1964

Com Pau Brasil em Wiesbaden na Alemanha em 1964

Os meus melhores cavalos foram o Pau Brasil, a Candonga, o Biribi, mas no meio da vida dele teve uma anemia e nunca mais voltou ao normal.

Viagem de navio para Europa

Tinha um alemão que morava no Brasil Karl Heinz Paff que tinha um cavalo na Hípica Paulista. Um dia nós estávamos em um Concurso em Campos do Jordão e sentados no gramado da casa de um sócio da Hípica bebendo uma caipirinha e comendo petisco. Aí o Paff falou que ia voltar para Alemanha.  Aí eu disse: então eu vou também. Embarcamos coronel Scheleder com 1 cavalo, o Helio Pessoa com 11, Karl Heinz Paff e eu. Todos de navio.

Levei a Candonga, um cavalo puro sangue inglês Pau Brasil e a Ipanema. Foi um mês de viagem. Uma noite começou a chover muito e o navio balançava muito. Foi quando o marinheiro bateu no meu quarto e falou:  “sr Raul a sua égua está fora do box.” Levantei correndo, suado, vomitando, com dor de cabeça e fui lá e ela tinha entalado no boxe. São passagens inesquecíveis.

Hipismo internacional na mídia

Hipismo internacional na mídia

O Helio estava levando os 11 cavalos para um vendedor. Quando o vendedor entrou no navio, ele viu o Pau Brasil e logo disse: esse cavalo é bom. Todo cavalo cabano é bom..

Raul refrescando Candonga e Biribi

Passeios refrescando Candonga e Biribi

 

A concorrência

Coronel Renyldo Ferreira (ex-cavaleiro olímpico e medalhista pan-americano). Eu me dava bem com ele pessoalmente. Mas, esportivamente, ele era muito difícil. Inclusive tem uma história de um Campeonato Paulista ou Brasileiro, era a última prova. O Renyldo estava em primeiro de longe e eu em segundo. Mas ele estava assim uns 30 pontos na frente, campeonato ganho. Aí ele entrou num triplo e perdeu mais de 30 pontos e eu fui campeão. Ele saiu andando bravo, ficou danado.

Coronel Renyldo e Raul: adversários nas pistas

Coronel Renyldo e Raul: adversários nas pistas

Coronel Sílvio Marcondes de Resende. No adestramento ele era fantástico. Salto, saltava.. Ele tinha duas éguas Gamini e Amancai e nós fomos pular uma prova em Santo Amaro que era em homenagem ao Regimento 9 de julho. Então o Sylvio entrou e nós fomos ao desempate e era uma prova puro sangue: com três obstáculos a 30 metros um do outro: uma sebe irlandesa, uma tríplice e um muro. E estávamos empatados a 1.80 metro: só eu e ele. O último obstáculo estava a 1.80 m. Aí ele vai e faz 4 pontos, um derrube. Já eu venho com Ejuin e sem qualquer medida, técnica, eu não tinha nada. Era primeiro ano que eu montava. Atravanquei e fui, cheguei e ele cravou: deu uma parada em 1.80m e eu dei uma cutucada de espora nele e ele saiu parado, passou limpo, limpo.. .. (risos) e o Sylvio parou de saltar, nunca mais saltou.

Potência com Baião em 1972

Potência com Baião em 1972

Tinha dois cavaleiros que fizeram a Escola de Equitação em Samur na França: o Felix Morgado e o Sylvio Resende. E o Felix era repórter, escrevia no jornal. Ele não se conformava comigo. Então ele punha a notícia assim: “por incrível que pareça Raul de Lara Campos foi o vencedor da prova.” Os meus amigos davam bronca, brigavam com ele.. eu dava risada.

A maioria dos cavaleiros tinha mais técnica e não entendia como eu podia ganhar.Tinham cavalos de 200 mil e eu pegava cavalinho na estrada e ganhava deles.

 

Conquistas memoráveis

No Pan-americano 1963, eu fui mal, inclusive, eu não queria entrar, não tinha cavalo. Por mim não pulava, mas classifiquei e fui obrigado. Mas quando terminou o Pan os cavaleiros estrangeiros ficaram e teve um Torneio em São Paulo e outro no Rio de Janeiro. Venci a principal prova do torneio em São Paulo e a principal prova no Rio ganhei também, inclusive, fui a um desempate com o coronel Delia, era o melhor cavaleiro da Argentina e tinha sido vice-campeão mundial na Itália em 1960 e prata por equipes no Pan e eu ganhei dele ao cronômetro em um desempate a 1.60 metro.

Raul ao lado do ginete top argentino Coronel Carlos Delia: vice-campeão mundial

Raul ao lado do ginete top argentino Coronel Carlos Delia: vice-campeão mundial em 1969

A minha vitória mais emocionante foi no Rio. Depois do último obstáculo, o cavalo focinhou e eu não cai e nem encostei a mão no chão. Vencemos e fomos notícia no jornal.

 

Máximas

Eu tenho três coisas boas na vida a primeira é a memória e as outras duas não me lembro…. pode por aí..

Eu não tinha técnica nenhuma. Minha técnica era atravancar, eu era valente, eu tinha coragem, eu não tinha medo. Eu pegava o cavalo e saltava o que tivesse..

Feitos memoráveis

Feitos memoráveis

O senhor não tinha empatia com os cavalos ?

Não eu acho que era só valentia viu porque o pessoal quando a coisa era muito grande ficava com medo. Alguns até desistiam e eu não. Via um muro de dois metros na frente eu topava ir pro muro.

O ranking da hípica existe há 20 anos e está sempre igual. Eu tinha que voltar a ser dirigente no hipismo porque eu tenho ideias, vou conversar com o Romeu Ferreira de Leite (atual diretor de salto da Hípica Paulista).

 

Exibição em dupla

Exibição em dupla

 

Tombos

Ah eu quebrei tudo que podia quebrar…

Queda em Santos deu o que falar

Queda em Santos deu o que falar

Quebrei a bacia, quebrei a tíbia e o perônio na perna direita. Também levei de coice de cavalo, por isso eu não tenho rótula no joelho.

Raul em ação e em dificuldades na Europa

Raul em ação e em dificuldades na Europa

Clavícula eu fraturei várias vezes, inclusive em algumas ocasiões puseram no lugar na hora. Acho que uma vez eu tive que engessar. O Nicolau Moraes Barros, amigo e médico, sempre acompanhava a gente.

Tombo em Wiesbanden, Alemanha

Tombo em Wiesbaden, Alemanha

O que o cavalo significa na sua vida ?

Eu acho que o cavalo preencheu 90% da minha vida. Eu diria que 90% da minha vida foi dedicada ao cavalo, inclusive até hoje. Eu tenho um sobrinho André Brennand de Pernambuco. Ele gosta de cavalo também e eu cuido dos cavalos dele em Itu. Tem um cavalo até que é de uma cor que eu nuca vi na vida. Eu guardei esse cavalo por causa da cor dele. Eu nunca vi nada igual na vida. Nunca imaginei que podia ter…

Eu tenho uma indumentaria de gaúcho, calça bombacha, bota, camisa xadrez, chapéu de gaúcho, tenho tudo e esse cavalo pintado está sendo domado quando ele ficou bem manso vou montar nele e tirar fotografia.

Versatilidade e arrojo

Versatilidade e arrojo

A Hípica Paulista

A área da Sociedade Hípica Paulista tem sete alqueires eu moro aqui há um quarteirão daqui. Assim tenho um sítio na porta de casa com empregados, piscina, cocheiras, campo de polo e tem outra: não pago um tostão. Sou sócio honorário.

Amor pelo hipismo e a Hípica Paulista por toda uma vida

Amor pelo hipismo e a Hípica Paulista por toda uma vida

Mensagem para os amantes dos cavalos

(silencio, pensativo..) Continue a amá-los até o ultimo dia da sua vida, você nunca se arrependerá havê-los amado. O cão é o seu melhor amigo, o cavalo é o seu melhor companheiro..

Campeão paulista master em 1988

Campeão paulista master em 1988

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Nota Raul Lara Campos faleceu em 24/12/2017 

Fonte: Sociedade Hípica Paulista – Carola May

 

 

 

 

 

 

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